Impacto Social

Crânios de Maria Bonita e Lampião são estudados e revelam novos detalhes sobre a história do cangaço

Após três anos de estudos na USP, os crânios de Maria Bonita e Lampião não tiveram DNA extraído, mas a família planeja um museu para preservar sua história e objetos pessoais. O acervo incluirá armas, joias e documentos.

Atualizado em
August 13, 2025
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Crânio reconstruído de Lampião (à esq.) e o de Maria Bonita (à dir.), segundo a USP — Foto: G. Ceccantini

Duas caixas de madeira, atualmente guardadas de forma provisória em um museu de São Paulo, marcam um novo capítulo na história de Maria Bonita e Lampião. Os crânios do casal, figuras emblemáticas do cangaço brasileiro, foram analisados após três anos e meio de estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Em setembro de 2021, os crânios foram enviados ao departamento de patologia da instituição, após a família ser alertada sobre o risco de perda dos restos mortais, que estavam sepultados em Salvador.

As netas de Lampião e Maria Bonita, Gleuse e Expedita Ferreira, relataram que os crânios foram mantidos em casa como um segredo de família. Gleuse Ferreira, de 69 anos, mencionou que os crânios eram guardados em uma caixa e, ocasionalmente, eram expostos ao sol. A análise realizada na USP não conseguiu extrair DNA dos crânios, devido à deterioração causada por manipulações anteriores e armazenamento em soluções inadequadas, como querosene.

Apesar da impossibilidade de análise genética, os pesquisadores afirmam ter evidências sólidas da identidade dos crânios, que pertencem a Lampião e Maria Bonita, assassinados em 1938 na Gruta de Angico, na divisa entre Sergipe e Alagoas. O doutorando e historiador José Guilherme Veras Closs, responsável pelo estudo, destacou que a reconstrução dos crânios foi um desafio, especialmente no caso de Lampião, que chegou em estado fragmentado.

O relatório dos pesquisadores revelou que o crânio de Maria Bonita estava mais íntegro, enquanto o de Lampião apresentava um alto grau de fragmentação. A análise também indicou evidências de decapitação e fraturas, além de problemas de saúde bucal. Closs enfatizou a importância de tratar os restos mortais com o mesmo respeito que se deve a um ser humano vivo, destacando a complexidade da história do cangaço, que é marcada por controvérsias.

A família Ferreira planeja construir um museu para preservar a história e os objetos do casal. Gleuse Ferreira afirmou que já possui um terreno e espera iniciar a construção do museu em três anos. O acervo incluirá armas, joias, fotografias e um cacho de cabelo de Maria Bonita, com a intenção de criar um espaço que funcione como um centro de estudos sobre o cangaço.

O advogado da família, Alex Daniel, ressaltou que o Memorial do Cangaço contará com a curadoria da família e buscará preservar a riqueza cultural e histórica do período. Projetos como esse merecem apoio da sociedade civil, pois a preservação da memória e da cultura é fundamental para a construção de uma identidade coletiva.

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