Impacto Social

Genoma brasileiro revela ancestralidade e saúde: um novo olhar sobre a miscigenação e suas consequências

Estudo inédito sequencia DNA de 2.723 brasileiros, revelando 78 milhões de variantes genéticas, muitas desconhecidas, que podem impactar saúde e medicina personalizada no país. Pesquisadores destacam a importância da diversidade genética.

Atualizado em
May 16, 2025
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Warren Umoh

Um estudo recente sequenciou o DNA de dois mil setecentos e vinte e três brasileiros, revelando setenta e oito milhões de variantes genéticas, muitas das quais desconhecidas. Essa pesquisa, publicada na revista científica Science, pode impactar a saúde e a medicina personalizada no Brasil. A geneticista Lygia da Veiga Pereira, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), destaca que a diversidade genética do país foi subestimada em estudos anteriores, que focavam principalmente em populações do hemisfério Norte.

O projeto, iniciado em 2019 com apoio do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde, enfrentou atrasos devido à pandemia de Covid-19. Os pesquisadores encontraram quase nove milhões de variantes sem registro em bancos de dados, evidenciando a riqueza genética da população brasileira, que inclui ancestrais africanos e indígenas. A pesquisa também revela que a linhagem paterna é predominantemente europeia, enquanto a linhagem materna apresenta uma mistura significativa de ancestralidade africana e indígena.

A colonização e a escravidão tiveram um impacto profundo na estrutura genética do Brasil. A historiadora Maria Helena Machado ressalta que as mulheres indígenas e africanas foram duplamente escravizadas, servindo como trabalhadoras e reprodutoras. Essa violência histórica moldou a composição genética atual, refletindo a realidade de uma miscigenação não consensual. A pesquisa também destaca a diversidade de etnias africanas, que foram forçadas a conviver em um mesmo espaço, resultando em um amálgama cultural único no Brasil.

Além disso, a pesquisa identificou variantes genéticas associadas a doenças como câncer e disfunções metabólicas. A geneticista Kelly Nunes, que participou da análise, afirma que essas descobertas podem ser extrapoladas para outras populações não amostradas, especialmente na África. Os resultados indicam que a seleção natural afetou genes relacionados à fertilidade e à resposta imunológica, refletindo a adaptação da população brasileira a diferentes agentes patogênicos ao longo da história.

A medicina personalizada, que atualmente se baseia em dados de populações com ancestralidade europeia, pode se beneficiar enormemente dessas novas informações. O projeto Genomas Brasil, que inclui outras iniciativas como o Genoma-SUS, visa ampliar a amostragem e melhorar o diagnóstico de doenças genéticas. O cardiologista Alexandre da Costa Pereira, do Instituto do Coração (Incor), enfatiza a importância de identificar variantes associadas a doenças para um tratamento mais eficaz.

Com a ampliação do conhecimento sobre a diversidade genética brasileira, é fundamental que a sociedade civil se mobilize para apoiar projetos que visem a saúde e o bem-estar da população. A união em torno de iniciativas que promovam a pesquisa e a medicina de precisão pode fazer a diferença na vida de muitos brasileiros, especialmente aqueles que enfrentam desigualdades no acesso à saúde.

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