Educação

Bibliotecas comunitárias na Amazônia transformam a relação de crianças com a leitura e a cultura

Elma Reis, mediadora de leitura, transforma a autoestima de crianças com "Meu Crespo é de Rainha". A ONG Vaga Lume planeja cinco novas bibliotecas até 2025, impactando comunidades na Amazônia.

Atualizado em
April 23, 2025
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Voluntária de biblioteca comunitária da ONG Vaga Lume lê para crianças na comunidade de Menino Deus, às margens do Rio Anapú, em Portel, na Ilha de Marajó (PA) - Kleber Jr./Divulgação

Bastou um livro para que Elma Reis, mediadora de leitura, ajudasse uma menina a enxergar beleza em seus cachos. Desde que leu Meu Crespo é de Rainha (2018), a criança brinca com penteados e nunca mais desejou ter o cabelo liso das amigas. A obra da escritora bell hooks integra o acervo da biblioteca comunitária de Barreirinhas (MA), onde crianças e adolescentes se reúnem para ouvir histórias contadas por Elma e outros voluntários da ONG Vaga Lume. Segundo Elma, "um livro pode transformar a vida de uma criança, principalmente em comunidades como a nossa, com desafios para acessar informação e conhecimento".

A ONG Vaga Lume já capacitou mais de seis mil mediadores de leitura, que atuam em 97 bibliotecas em escolas e espaços comunitários ao longo de 23 municípios da Amazônia Legal. Nesses locais, os livros são dispostos em prateleiras baixas, permitindo que as crianças tenham fácil acesso. As estantes móveis possibilitam que os voluntários transportem os livros para diferentes locais, criando um ambiente de leitura acessível e acolhedor.

As bibliotecas também promovem atividades culturais para toda a comunidade, como sessões de cinema, saraus e contações de histórias por idosos. O acervo totaliza 195 mil livros, adquiridos pela Vaga Lume via Lei Rouanet. A diretora-executiva da ONG, Lia Jamra, explica que o processo de curadoria é extenso e busca contemplar a diversidade de cada território, incluindo obras de escritores indígenas e quilombolas.

Além de ler, as crianças e adolescentes também produzem seus próprios livros. Até o momento, foram criadas 289 obras com o apoio dos voluntários, muitas delas baseadas em histórias de moradores locais. A ONG atua em um cenário desafiador, onde o interesse pela leitura no Brasil tem diminuído. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou que o país perdeu quase sete milhões de leitores entre 2019 e 2024, com a maior queda ocorrendo na região Norte.

O projeto da Vaga Lume impacta anualmente cerca de quinze mil crianças e jovens, buscando reverter essa tendência. A expectativa é construir cinco novas bibliotecas até 2025. Lia Jamra destaca que o engajamento comunitário é fundamental para o sucesso desses espaços, que devem ser vistos como locais de pertencimento e trabalho coletivo.

Elma Reis, que cresceu vendo seus pais se voluntariando no projeto, acredita que a biblioteca comunitária é um agente de mudança. "Muitos adolescentes que frequentaram a biblioteca foram fazer medicina e enfermagem. Fazer parte desse projeto é fazer parte da mudança, mesmo que a passos de formiguinha", afirma. Projetos como esse merecem o apoio da sociedade civil, pois podem transformar vidas e fortalecer a cultura da leitura nas comunidades.

Folha de São Paulo
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