Socioambiental

Colapso da população de jumentos no Brasil ameaça a espécie devido à demanda por colágeno na medicina tradicional chinesa

A extração de colágeno da pele de jumentos para a produção de ejiao está levando à extinção da espécie no Brasil, com uma queda de 94% na população desde 1996. Pesquisadores pedem a proibição do abate e a criação de santuários.

Atualizado em
July 2, 2025
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Mulher adota 68 jumentos no Nordeste e salva animais que enfrentam ameaça de extinção por alta demanda da China — Foto: Pollyana Araújo

A extração de colágeno da pele de jumentos, utilizada na produção do ejiao — um produto da medicina tradicional chinesa — tem causado uma drástica redução na população desses animais. No Brasil, mais de um milhão de jumentos foram abatidos entre mil novecentos e noventa e seis e dois mil e vinte e cinco, resultando em uma queda de noventa e quatro por cento na população, conforme dados da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos. O número de jumentos no país caiu de um milhão e trezentos e setenta mil para cerca de setenta e oito mil.

O professor Pierre Barnabé Escodro, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), alerta que, se o ritmo atual de abate continuar, a espécie pode não sobreviver até dois mil e trinta no Brasil. Recentemente, um evento em Maceió reuniu cerca de cento e cinquenta cientistas para discutir estratégias de conservação e a aprovação do Projeto de Lei 1.973/2022, que visa proibir o abate de jumentos em todo o país, atualmente paralisado no Congresso Nacional.

Atualmente, três frigoríficos na Bahia têm autorização do Serviço de Inspeção Federal (SIF) para abater jumentos. Apesar da regulamentação, pesquisadores e defensores dos animais afirmam que não há rastreabilidade na cadeia produtiva, nem controle efetivo sobre maus-tratos e sanidade animal. Escodro destaca que a produção de jumentos para abate é uma atividade extrativista insustentável, levando ao esgotamento contínuo de um recurso que não se regenera rapidamente.

Um estudo recente publicado na revista científica Animals revelou que cento e quatro jumentos abandonados, destinados ao abate, apresentavam sinais de inflamação sistêmica, indicando negligência e sofrimento. A Justiça já suspendeu temporariamente a atividade em outras ocasiões devido a denúncias de maus-tratos e risco de extinção. Em dois mil e vinte e dois, um projeto de lei na Assembleia Legislativa da Bahia propôs a proibição do abate, mas o relator, deputado Paulo Câmara (PSDB), deu parecer contrário, alegando que a população de jumentos está estável.

O comércio de ejiao é altamente lucrativo, movimentando cerca de seis bilhões e quatrocentos milhões de dólares anualmente. A pele de um único jumento pode custar até quatro mil dólares. A escassez dos animais elevou o preço de um jumento vivo de cerca de cem reais para até quinhentos reais no Nordeste. A situação é alarmante em outros países, como o Egito, que já praticamente perdeu sua população de jumentos, e no Quênia, onde o roubo de jumentos impacta comunidades rurais.

No Brasil, alternativas como a criação de santuários e a reintrodução dos jumentos em atividades econômicas estão sendo discutidas. Regiões como Jericoacoara e Santa Quitéria abrigam jumentos em áreas de difícil acesso para abatedouros. Escodro sugere que essas áreas poderiam ser formalizadas como zonas de conservação, ajudando a combater a extinção. Nessa situação, a união da sociedade pode ser fundamental para apoiar iniciativas que promovam a proteção e a valorização desses animais.

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