Estudo revela que a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, agrava secas e prejudica a pesca, desafiando a operadora Norte Energia, que nega os impactos. Comunidades ribeirinhas se mobilizam para monitorar os efeitos.

A usina hidrelétrica de Belo Monte, localizada no norte do Pará, tem gerado polêmica desde sua inauguração em 2016. Um estudo recente, realizado por cientistas e membros das comunidades indígenas da bacia do rio Xingu, aponta que as barragens da usina têm causado sérios impactos socioambientais, prejudicando a pesca e prolongando as secas na região. Os pesquisadores afirmam que a alteração do fluxo natural do rio comprometeu a captura de peixes e afetou o modo de vida das comunidades ribeirinhas.
O estudo, publicado na revista Conservation Biology, revela que a construção das barragens de Belo Monte e Pimental alterou o ciclo natural das cheias, atrasando-as entre um e quatro meses. Essa mudança impacta diretamente a desova dos peixes, que depende do aumento do nível d'água para ocorrer. Josiel Jacinto Pereira Juruna, um dos autores do estudo e líder da aldeia Miratu, destacou que as comunidades locais perceberam rapidamente as mudanças no ambiente, que já eram previstas por seus anciãos.
As evidências coletadas mostram uma queda drástica na captura de peixes. A média de captura por unidade de esforço, que mede a quantidade de peixes capturados em relação ao esforço empregado, caiu de 11,1 quilos diários por pescador para 4,53 quilos. Espécies como a pescada e o curimatã apresentaram reduções significativas em suas capturas, forçando os pescadores a adaptarem suas técnicas, aumentando o uso de redes de emalhar, um método menos sustentável.
A Norte Energia, operadora da usina, contestou as alegações do estudo, afirmando que as mudanças no ecossistema já estavam em curso antes da construção das barragens. A empresa defende que suas ações de mitigação e compensação estão em conformidade com as licenças ambientais e que não houve extinção de espécies na área. No entanto, as comunidades ribeirinhas, desconfiadas dos estudos de impacto ambiental realizados pela empresa, têm promovido análises independentes desde 2013.
O monitoramento ambiental, que inclui a instalação de medidores d'água em áreas de reprodução de peixes, é realizado por equipes formadas por indígenas e ribeirinhos. Essa colaboração busca garantir que o conhecimento tradicional seja incorporado à ciência, promovendo uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos. Os pesquisadores enfatizam a necessidade de revisar as políticas públicas do setor elétrico, pois os custos socioambientais da energia hidrelétrica na Amazônia são elevados.
As vozes das comunidades locais são fundamentais para a preservação do ecossistema da bacia do rio Xingu. A união entre pesquisadores e povos indígenas pode ser um modelo para outras regiões, mostrando a importância de ouvir as necessidades de quem vive na área. A mobilização da sociedade civil pode ser crucial para apoiar iniciativas que busquem um equilíbrio entre a geração de energia e a preservação ambiental, garantindo um futuro mais sustentável para todos.

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