Saúde e Ciência

Estudo revela que maus-tratos na infância causam danos duradouros ao hipocampo e afetam o desenvolvimento mental

Estudo revela que maus-tratos na infância reduzem o volume do hipocampo direito, impactando memória e regulação emocional. Pesquisadores do CISM destacam a urgência de intervenções precoces para mitigar esses efeitos.

Atualizado em
May 21, 2025
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Achados indicam que os maus-tratos afetam de forma desigual as crianças, dependendo da intensidade e frequência do trauma (imagem: Freepik*)

Um estudo brasileiro com setecentos e noventa e cinco participantes, com idades entre seis e vinte e um anos, revelou que maus-tratos na infância têm efeitos duradouros no desenvolvimento do cérebro, especialmente no hipocampo, que é crucial para a memória e a regulação emocional. Os resultados foram publicados na revista Psychological Medicine, da Universidade de Cambridge, e fazem parte da Coorte Brasileira de Alto Risco para Transtornos Mentais (BHRC), um dos maiores estudos longitudinais da América Latina sobre desenvolvimento mental infantil.

A pesquisa, vinculada ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), utilizou exames de ressonância magnética em três momentos distintos. Os pesquisadores também analisaram autorrelatos e informações dos pais para avaliar a exposição ao trauma. Os dados indicam que altos níveis de maus-tratos na infância estão associados a uma redução significativa no volume do hipocampo direito, mesmo após considerar outros fatores, como transtornos mentais e características genéticas.

O hipocampo esquerdo mostrou-se menos afetado, sugerindo uma vulnerabilidade desigual entre os lados do cérebro. Alterações no hipocampo podem levar a problemas emocionais e cognitivos a longo prazo, como dificuldades de aprendizado e maior risco de transtornos como depressão e ansiedade. Victoria Doretto, primeira autora do estudo e psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FM-USP, destacou que as mudanças no hipocampo direito permanecem consistentes ao longo do tempo, mesmo em casos de melhora clínica.

Os resultados também revelam que a intensidade e a frequência do trauma influenciam de maneira desigual as crianças afetadas. O estudo, que é parte da tese de doutorado de Doretto, enfatiza a necessidade de intervenções precoces para mitigar os efeitos negativos do trauma infantil. A pesquisadora ressalta a urgência de políticas públicas que promovam ambientes seguros para o desenvolvimento infantil e intervenções que ajudem a reduzir os danos causados por experiências traumáticas na infância.

Além de ampliar o entendimento sobre os efeitos do trauma infantil, a pesquisa abre espaço para novas investigações que avaliem continuamente os maus-tratos ao longo do tempo. Isso é fundamental para eliminar possíveis vieses nos relatos de pais e participantes, garantindo uma compreensão mais precisa do impacto do trauma na saúde mental e no desenvolvimento das crianças.

Esses achados ressaltam a importância de unir esforços para criar um ambiente mais seguro e acolhedor para as crianças. Iniciativas que busquem apoiar vítimas de maus-tratos e promover projetos sociais podem fazer uma diferença significativa na vida de muitos jovens, ajudando a construir um futuro mais saudável e promissor.

Agência FAPESP
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