Meio Ambiente

Incêndios em lixões brasileiros liberam milhões de toneladas de gases poluentes e afetam a saúde pública

Análise revela 2.974 focos de incêndio em 740 lixões no Brasil, emitindo 6 milhões de toneladas de gases de efeito estufa anualmente, enquanto a COP30 se aproxima e a situação persiste sem controle.

Atualizado em
August 3, 2025
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Lixões pegam fogo a cada dois dias no país — Foto: Cristiano Mariz/O GLOBO

No bairro Jardim dos Ipês, em Valparaíso de Goiás, a fumaça se eleva do chão, enquanto funcionários da prefeitura tentam, sem sucesso, apagar um incêndio que surge entre os resíduos. A dona de casa Naiara Souza Cardoso relata que seus filhos enfrentaram problemas respiratórios devido à fumaça que invade sua casa. Essa situação não é isolada; uma análise recente revelou 2.974 alertas de fogo em 740 lixões em todo o Brasil nos últimos dez anos, resultando na emissão de seis milhões de toneladas de gases de efeito estufa anualmente.

O impacto ambiental é alarmante, comparável às emissões anuais de uma cidade como Campinas, com mais de um milhão de habitantes. O Brasil se prepara para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que ocorrerá em menos de cem dias, enquanto muitos lixões continuam a queimar a céu aberto. Um dos casos mais preocupantes está em Curuçá, no Pará, onde um lixão próximo à sede da COP30 ocupa nove hectares e abriga 41 mil habitantes.

A gestão dos lixões é uma questão complexa e, apesar de serem proibidos por lei desde 2010, muitos ainda operam de forma irregular. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que mais de 1.700 municípios reconhecem a existência de lixões, enquanto a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) sugere que o número pode chegar a três mil. A falta de dados atualizados e sistematizados dificulta a fiscalização e a gestão adequada dos resíduos.

A pesquisa do GLOBO, que utilizou inteligência artificial e imagens de satélite, identificou 740 depósitos irregulares que sofreram queimadas. Essa é a maior amostra de lixões catalogada até o momento, revelando uma realidade que muitos desconhecem. Especialistas afirmam que a situação pode ser ainda mais grave do que os dados indicam, destacando a necessidade de um controle mais rigoroso e de soluções sustentáveis.

As queimadas em lixões liberam gases e partículas que contribuem para a poluição do ar e o aquecimento global. O cientista climático Carlos Nobre alerta que a incineração de plásticos a céu aberto é uma das principais fontes de poluição. A sazonalidade das queimadas, que ocorre principalmente entre maio e outubro, agrava a situação, pois inclui a queima de materiais altamente tóxicos.

Com a falta de controle e a persistência dos lixões, a sociedade civil deve se mobilizar para buscar soluções. Projetos que visem a recuperação e a gestão adequada dos resíduos são essenciais. A união da comunidade pode fazer a diferença na luta contra a poluição e na promoção de um ambiente mais saudável para todos.

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