Organizações ambientais e populações tradicionais pedem veto ao Projeto de Lei 2159/21, que facilita o licenciamento ambiental e ameaça biomas brasileiros. Mobilizações em Brasília refletem a preocupação com retrocessos.

Organizações ambientais, pesquisadores e comunidades tradicionais estão pedindo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que vete integralmente o Projeto de Lei 2159/21, conhecido como PL da Devastação. A proposta foi aprovada na madrugada de 17 de agosto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Após essa aprovação, o projeto segue para a Presidência da República, que tem um prazo de quinze dias úteis para decidir sobre a sanção ou veto.
O secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, classificou o PL como o maior retrocesso ambiental desde a ditadura militar. Ele destacou que a nova legislação reduz a capacidade do governo de controlar mais de oitenta por cento dos empreendimentos que precisam de licenciamento ambiental. A proposta inclui um licenciamento simplificado, que pode ser solicitado sem estudos de impacto, permitindo que atividades potencialmente poluidoras sejam autorizadas sem avaliação de riscos.
Entre as mudanças, o licenciamento ambiental simplificado por adesão e compromisso (LAC) poderá ser solicitado por empreendimentos que desejam realizar obras como duplicação de rodovias e instalação de linhas de transmissão. Astrini alertou que isso pode levar a situações perigosas, como a aprovação automática de pequenas centrais hidrelétricas e barragens de rejeitos, sem a devida avaliação de risco.
O climatologista Carlos Nobre também expressou preocupação, afirmando que a facilitação dos licenciamentos pode resultar em um desmatamento irreversível nos quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal. Ele ressaltou que esses biomas estão próximos de um ponto de não retorno, onde a devastação pode inviabilizar atividades produtivas, como a agropecuária.
Populações diretamente afetadas pela nova legislação, incluindo mulheres indígenas, estão organizando uma marcha a Brasília para protestar contra o PL. A diretora do Instituto Witoto, Vanda Witoto, afirmou que a proposta transforma a vida em mercadoria e legaliza práticas prejudiciais, como a mineração predatória em terras indígenas. Organizações internacionais, como a Proteção Animal Mundial e a Action Aid, também se manifestaram contra o PL, destacando que ele representa um retrocesso significativo nos direitos de comunidades tradicionais e na proteção ambiental.
Por outro lado, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) defendeu o PL, afirmando que ele moderniza e desburocratiza o licenciamento ambiental, garantindo segurança jurídica para o setor produtivo. No entanto, a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) expressou preocupação com os impactos negativos da flexibilização do licenciamento, que pode aumentar o desmatamento e prejudicar a agricultura familiar. Nesse contexto, a união da sociedade civil pode ser fundamental para apoiar iniciativas que promovam a proteção ambiental e os direitos das comunidades afetadas.
O comércio de couro de pirarucu, promovido como sustentável, gera lucros desiguais, com pescadores locais sem reconhecimento e enfrentando contrabando. A indústria da moda e autoridades apoiam, mas desafios persistem.

Malcom Ferdinand propõe a ecologia decolonial, unindo a luta por justiça social à preservação ambiental, desafiando o ambientalismo tradicional que ignora injustiças sociais. A obra "Uma ecologia decolonial" destaca a importância de integrar dignidade dos povos oprimidos e equilíbrio ecológico.

A Amazônia enfrenta um dilema entre a preservação ambiental e a pobreza de sua população, enquanto nações ricas exigem sacrifícios sem reduzir suas próprias emissões. A hipocrisia global é evidente.

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) criticou a sanção parcial do PL da Devastação, que flexibiliza licenças ambientais. Apesar de vetos, trechos que enfraquecem a regulação ambiental permanecem, gerando riscos à proteção de comunidades tradicionais.

A cacica Juma Xipaia estreou como protagonista e produtora do documentário "Yanuni" no Festival de Tribeca, destacando sua luta pelos direitos indígenas e a proteção ambiental. O filme, coproduzido por Leonardo DiCaprio, aborda sua trajetória e desafios, além de criticar o marco temporal. Juma enfatiza a importância de fortalecer a medicina tradicional e a gestão ambiental em seu território, enquanto denuncia a pressão por mineração e outras ameaças.

Estudo do World Resources Institute revela que a bioeconomia na Amazônia pode adicionar R$ 45 bilhões ao PIB do Brasil e gerar 830 mil empregos até 2050, destacando a importância da biodiversidade e do conhecimento local.