Impacto Social

Pesquisadores da USP alertam sobre retrocessos no tratamento de crianças e adolescentes trans no Brasil e no mundo

Pesquisadores da USP publicaram artigo na Nature Medicine criticando a nova resolução do CFM que restringe tratamentos para jovens trans, alertando sobre riscos à saúde mental e direitos humanos.

Atualizado em
July 2, 2025
Clock Icon
4
min
Uma ativista dos direitos transgêneros segura uma bandeira durante o protesto do Dia da Visibilidade Trans no National Mall, em 31 de março de 2025, na cidade de Washington. — Foto: AFP

Pesquisadores do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual da Universidade de São Paulo (USP) publicaram um artigo na revista Nature Medicine criticando as restrições ao acesso a tratamentos para crianças e adolescentes trans, especialmente no Brasil. Os autores, Igor Longobardi, Bruna Caruso Mazzolani, Hamilton Roschel, Bruno Gualano e Alexandre Saadeh, afirmam que o cuidado à população trans está “sob ataque” globalmente, com políticas que ignoram evidências científicas e éticas.

Em abril, o Conselho Federal de Medicina (CFM) revisou os critérios para atendimento a pessoas trans, alterando a idade mínima para hormonioterapia de dezesseis para dezoito anos. Além disso, a nova norma proíbe o bloqueio puberal, uma estratégia reversível que impede o desenvolvimento de características físicas do sexo de nascimento. A resolução anterior permitia essa prática em caráter experimental, mas a nova regra a proíbe até mesmo em estudos.

Grupos de defesa dos direitos trans já protocolaram uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF) para reverter a nova resolução. O Ministério Público Federal (MPF) também solicitou à Justiça a suspensão da norma, argumentando que ela contraria recomendações internacionais de proteção aos direitos humanos. Os pesquisadores da USP criticam essas restrições, afirmando que elas prejudicam o cuidado individualizado e criam um ambiente de medo entre profissionais de saúde.

O artigo destaca que o cuidado afirmativo de gênero é respaldado por evidências crescentes. Estudos longitudinais demonstram que o uso de bloqueadores de puberdade e hormônios reduz sintomas de depressão e ideação suicida entre adolescentes trans. Pesquisas na Holanda e nos Estados Unidos mostram que jovens em tratamento hormonal apresentam significativamente menos chances de desenvolver pensamentos suicidas.

O CFM justifica suas restrições com base em um suposto aumento de arrependimento pós-transição, embora reconheça a falta de dados sobre o contexto brasileiro. Especialistas contestam essa afirmação, citando estudos que indicam taxas de arrependimento inferiores a um por cento. Um estudo abrangente na Holanda acompanhou setecentos e vinte indivíduos em tratamento e constatou que noventa e oito por cento continuaram a transição após duas décadas.

Os pesquisadores da USP expressam preocupação com a proibição de pesquisas sobre bloqueadores, o que dificulta a geração de dados necessários para fundamentar políticas de saúde. Eles alertam que a falta de acesso ao cuidado de afirmação de gênero pode aumentar os riscos de depressão e suicídio entre jovens trans, especialmente em um sistema de saúde já desigual. A união da sociedade civil pode ser crucial para apoiar iniciativas que garantam direitos e cuidados adequados a essa população vulnerável.

Leia mais

Rick Perry defende a ibogaina como tratamento inovador para traumas e dependência química
Impacto Social
Clock Icon
3
min
Rick Perry defende a ibogaina como tratamento inovador para traumas e dependência química
News Card

Rick Perry, ex-governador do Texas, se tornou defensor da ibogaina como tratamento para traumas e dependências após uma experiência intensa no México. Ele busca financiamento para pesquisas focadas em veteranos.

Justiça reconhece responsabilidade do Estado em adoções forçadas de crianças nos anos 1980 em Minas Gerais
Impacto Social
Clock Icon
4
min
Justiça reconhece responsabilidade do Estado em adoções forçadas de crianças nos anos 1980 em Minas Gerais
News Card

Uma decisão judicial recente reconheceu a responsabilidade do Estado por adoções ilegais de crianças nos anos 1980 em Minas Gerais, resultando em indenizações de R$ 1,8 milhão a três famílias. O julgamento abre precedentes para que outras vítimas busquem reparação e destaca a importância do acesso à justiça em casos de violações de direitos.

Polícia Civil do Distrito Federal lança Ouvidoria da Mulher para fortalecer direitos e atendimento às vítimas
Impacto Social
Clock Icon
3
min
Polícia Civil do Distrito Federal lança Ouvidoria da Mulher para fortalecer direitos e atendimento às vítimas
News Card

A Polícia Civil do Distrito Federal lançou a Ouvidoria da Mulher, visando aprimorar o atendimento a vítimas de violência. A equipe, composta preferencialmente por policiais femininas, será liderada por uma delegada e focará na orientação sobre direitos e acesso a serviços legais.

Festival Pint of Science celebra 10 anos no Brasil com debates sobre mudanças climáticas em bares
Impacto Social
Clock Icon
3
min
Festival Pint of Science celebra 10 anos no Brasil com debates sobre mudanças climáticas em bares
News Card

O Festival Pint of Science celebra uma década no Brasil, promovendo debates sobre ciência em bares. Este ano, o tema é "Tempo de mudanças", abordando as mudanças climáticas em cinco locais no Rio de Janeiro.

Brasil enfrentará desequilíbrio previdenciário em 2050; previdência privada se torna essencial para a estabilidade financeira
Impacto Social
Clock Icon
4
min
Brasil enfrentará desequilíbrio previdenciário em 2050; previdência privada se torna essencial para a estabilidade financeira
News Card

A previdência social no Brasil enfrenta um desequilíbrio crescente, com mais aposentados do que contribuintes previsto para 2050. Ângela Assis, CEO da Brasilprev, enfatiza a relevância da previdência privada e inovações para democratizar o acesso.

STJ analisa remição de pena para mães que amamentam na prisão e reconhece cuidado materno como trabalho
Impacto Social
Clock Icon
3
min
STJ analisa remição de pena para mães que amamentam na prisão e reconhece cuidado materno como trabalho
News Card

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) irá reavaliar a remição de pena para mães que amamentam na prisão, com o ministro Sebastião Reis argumentando que essa atividade deve ser reconhecida como trabalho. A decisão pode influenciar futuras diretrizes da execução penal feminina.